José João Marques Pais
jjmarquespais@iol.pt
É meu propósito deixar aos vindouros alguns apontamentos da história da nossa região que pela sua importância regional e impacto que tiveram na vida das pessoas, me parecem que devem ser do conhecimento geral, de modo a que se não perca essa memória colectiva.
Foi um simples acaso que me pôs no caminho da “questão de Vale de Cavalos” pois nas pesquisas efectuadas em jornais para a compilação do livro História do Ciclismo em Alpiarça, apareciam-me frequentemente notícias sobre aquele assunto. Fiquei com ele “debaixo d`olho” para o tratar numa próxima oportunidade. Posteriormente, ao proceder ao arquivo de algumas cartas do espólio de José Relvas, deparo de novo com “a questão de Vale de Cavalos” a ser abordado em cartas que o proprietário do Solar dos Patudos dirigia à esposa.
Comecei a interessar-me vivamente pelo tema, pesquisei nos livros de actas da Câmara Municipal de Alpiarça, depois consultei as que existiam na Biblioteca da Chamusca e finalmente completei a acção de pesquisa na Junta de Freguesia de Vale de Cavalos. A ideia era apresentar os factos e as paixões que eles próprios desencadearam em cada uma das terras, com a defesa dos seus pontos de vistas. Primeiro tratou-se do “namoro” que as pessoas mais influentes de Alpiarça, começaram a fazer em relação à freguesia de Vale de Cavalos, enquanto preparavam junto da assembleia da República a criação do concelho de Alpiarça, com a saída da freguesia do concelho de Almeirim, o que se veio a concretizar em 2 de Abril de 1914. O “namoro” foi longo pois só em 1919, após José Relvas ter ocupado o cargo de Chefe do Governo, foi possível anexar a freguesia de Vale de Cavalos ao concelho de Alpiarça, retirando-a do domínio da Chamusca, facto que aconteceu em 10 de Maio de 1919, com a publicação do decreto lei que concretizava aquela situação. A notícia caiu como um trovão entre a população chamusquenha. A partir daí desencadearam todos os mecanismos possíveis para anular esta resolução. No imediato isso não aconteceu e tiveram que esperar até 2 de Setembro de 1926, para, com uma situação política mais favorável, reaverem a freguesia de vale de cavalos, o que ocorreu no meio de grandes manifestações de sinal contrário. Em Alpiarça, as águas agitaram-se sob a batuta de José Relvas, tendo ocorrido recontros sangrentos que envolveram trabalhadores de Vale de Cavalos. Por outro lado, no concelho da Chamusca, o tempo era de festa sob a direcção do Dr. Rafael Duque, um dos grandes responsáveis pelo volte-face nas decisões governamentais.
O meu trabalho de pesquisa visou, sobretudo a ordenação de informação dispersa, de modo a dar ao leitor uma visão do que na realidade aconteceu nesses conturbados tempos da primeira República e as suas implicações nos mais modestos recantos do nosso país, como era o caso específico de vale de Cavalos.
Optei, em termos de apresentação, por escrever em discurso directo, isto é, transcrever quase na íntegra a maior parte dos documentos sobre os diversos assuntos, nomeadamente correspondência trocada e não resumir em palavras minhas os assuntos daqueles documentos. Estou convicto que é mais interessante escrever a história apresentando aos leitores os documentos, as palavras e os comentários feitos pelos próprios que as escreveram. Utilizei umas vezes os termos da época, outras vezes actualizei certas palavras, foi opção minha, quando julguei que assim se perceberia melhor a ideia e o texto.
De notar a actualidade do tema, em que uma freguesia está a ser disputada por dois concelhos, ultrapassando o que a própria lei definia na altura como essencial para que essas transferências se fizesse. Passados mais de 80 anos, a Assembleia da República decide a criação de dois concelhos – Fátima e Canas de Senhorim – tendo por base uma lei que ainda não foi votada. Hoje, tal como ontem, a actuação dos deputados deixa muito a desejar em termos de bom senso e transparência. Hoje, tal como ontem, esta actuação política pode trazer graves consequências para a convivência pacifica entre concelhos vizinhos.
Finalmente gostaria de chamar a atenção para o facto deste não ser o trabalho de um historiador, mas apenas o de uma pessoa interessada em dar alguns contributos para que o passado não seja esquecido na construção do futuro. É pois uma publicação despretensiosa aquela que vos apresento e para a qual espero a máxima benevolência nas apreciações e criticas que os leitores entenderem fazer.
José João Marques Pais